“E quando isso suceder?…” questionara-se, perdida… mais perdida ainda ficara no momento da consumação; criança fraca, que chorara, gritara e num grande desalento - no vácuo horrível duma vida desfeita – sucumbira, depois de ter resistido durante largos dias. O seu espírito enfraquecera pouco a pouco na antevisão da desgraça. Não resistira… teve medo, muito medo, medo de ficar sozinha… medo de…
sábado, 21 de março de 2009
sexta-feira, 6 de março de 2009
sábado, 17 de janeiro de 2009
Correr... preciso correr...
Necessito correr. Correr em direcções sem sentido. Correr rápido. Correr com a brisa a romper-me a cara, com o Sol a secar-me as lágrimas. Preciso correr. Perseguir a minha liberdade e nunca alcançá-la para não cessar de correr. Correr com os olhos vendados, com a mente em branco. Correr por correr. Sem nenhum objectivo, sem metas, sem tropeções que arrebatem sonhos. Cansar-me de correr. Deixar-me cair quando já não tenha forças, recuperá-las e novamente correr. Não parar. Correr, olhar para os lados, para trás e nada mais querer ver que não seja o rasto que vou deixando à minha passagem. Com mais coragem correrei sem ninguém que me queira perseguir ou que me queira esperar. Correr. Fugir de mim ou talvez, quem sabe, ir ao meu encontro. Chocar de frente com a outra parte de mim que quero esquecer, que não quero encontrar. Arrebatar dela a alma e o coração, intrínsecos sentimentos, sugar-lhe o veneno que corre nas suas veias e que a consome a cada dia mais. Eu só quero sossego! Mesmo que isso signifique isolar-me. Correr sozinha. Não entendo este sentimento que me assola, me possui e me agonia devagar. Não entendo e talvez nem queira entender. Simplesmente fecho-me de fora para dentro e de dentro para fora; calo a minha voz, fico muda, distancio-me, fecho os olhos, respiro fundo e, às vezes, durmo. Ou, então, corro. Corro com o silêncio dos meus gritos dentro de mim e pairo na imensidão deste vazio...
Só me resta correr...
Só me resta correr...
Silêncio de
Serena
à(s)
17.1.09
7
Silêncios
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
gestos e palavras
Gestos e palavras complementam-se, ou não fossem duas formas de comunicação.
O que seria de palavras sem os gestos para as reforçar ou o que seria dum gesto sem palavras para o definir e consolidar?
Já duvidei da palavra, chegando a crer que unicamente a palavra poderia ter duplo entendimento, mas à vida coube talvez o desprazer, talvez a sensatez de me ensinar que também os gestos são questionáveis.
Portanto, hoje, não dissocio a palavra do gesto, nem o gesto da palavra. Somente ambos e, em consonância, perfazem o tudo ou... o nada.
O que seria de palavras sem os gestos para as reforçar ou o que seria dum gesto sem palavras para o definir e consolidar?
Já duvidei da palavra, chegando a crer que unicamente a palavra poderia ter duplo entendimento, mas à vida coube talvez o desprazer, talvez a sensatez de me ensinar que também os gestos são questionáveis.
Portanto, hoje, não dissocio a palavra do gesto, nem o gesto da palavra. Somente ambos e, em consonância, perfazem o tudo ou... o nada.
Silêncio de
Serena
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13.1.09
0
Silêncios
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
- como a outra gente, afinal!
Tenho trinta e poucos anos, e não creio em coisa alguma; olho em volta de mim e não vejo nada que me atraia, nada que me encante, nada para que viva. Sinto, verdadeiramente sinto, que me barraram todo o corpo com uma camada de gesso muito espessa que me prende os movimentos, me aniquila os músculos.
Para a doença física em que a vida se me tornou, só existe um remédio: o aniquilamento. No entanto, nunca terei a força de vontade necessária para absorver esse temível elixir. Os meus amigos podem estar perfeitamente descansados. Apesar de tudo, continuarei vivendo; apesar de nada me distrair, não deixarei de frequentar os teatros; apesar de não crer em coisa alguma, irei rabiscando, alinhando palavras, escrevendo silêncios, sempre mais e mais, na conquista vã duma quimera… Gritando sem cessar a minha desgraça, amaldiçoando a existência, irei gozando do que nela houver de bom - como a outra gente, afinal!
Para a doença física em que a vida se me tornou, só existe um remédio: o aniquilamento. No entanto, nunca terei a força de vontade necessária para absorver esse temível elixir. Os meus amigos podem estar perfeitamente descansados. Apesar de tudo, continuarei vivendo; apesar de nada me distrair, não deixarei de frequentar os teatros; apesar de não crer em coisa alguma, irei rabiscando, alinhando palavras, escrevendo silêncios, sempre mais e mais, na conquista vã duma quimera… Gritando sem cessar a minha desgraça, amaldiçoando a existência, irei gozando do que nela houver de bom - como a outra gente, afinal!
Silêncio de
Serena
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2.1.09
6
Silêncios
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Suicidas, como os respeito!
Quer dizer: não consideras o suicídio uma covardia?
Mas de forma alguma! Acho até que um suicida é uma criatura de enorme coragem. Sei que um suicida é um desertor: a existência tornara-se-lhe impossível; ele fugiu-lhe. Perfeitamente. No entanto, para fugir, teve que praticar um acto muito mais violento - logo, muito mais corajoso - do que praticaria se continuasse a viver. Se continuasse vivo, conformava-se no fim de contas com a lei comum. - “A vida é um sofrimento eterno” - sujeitava-se. Mas ele não se sujeitou, morreu às suas próprias mãos - isto é: revoltou-se. Ora, a “revolta” foi sempre sinónimo de audácia, de coragem de energia.
Os suicidas! Ah! Com que entusiasmo os admiro, como os respeito! Eles realizaram aquilo que quiseram. Eis a sua grande superioridade. Valem bem mais do que eu, que tenho tanto desejo e nunca serei capaz de despejar um revólver sobre o meu crânio. Quem vive bocejante, lazeirenta como eu vivo, e continua a viver, não é só covarde - é um miserável.
Mas de forma alguma! Acho até que um suicida é uma criatura de enorme coragem. Sei que um suicida é um desertor: a existência tornara-se-lhe impossível; ele fugiu-lhe. Perfeitamente. No entanto, para fugir, teve que praticar um acto muito mais violento - logo, muito mais corajoso - do que praticaria se continuasse a viver. Se continuasse vivo, conformava-se no fim de contas com a lei comum. - “A vida é um sofrimento eterno” - sujeitava-se. Mas ele não se sujeitou, morreu às suas próprias mãos - isto é: revoltou-se. Ora, a “revolta” foi sempre sinónimo de audácia, de coragem de energia.
Os suicidas! Ah! Com que entusiasmo os admiro, como os respeito! Eles realizaram aquilo que quiseram. Eis a sua grande superioridade. Valem bem mais do que eu, que tenho tanto desejo e nunca serei capaz de despejar um revólver sobre o meu crânio. Quem vive bocejante, lazeirenta como eu vivo, e continua a viver, não é só covarde - é um miserável.
Silêncio de
Serena
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26.12.08
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Silêncios
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
E como morremos já...
Semilouca, com a razão obscurecida pelo menos, ela assistiu impassível à agonia suave dele e, vestida de preto - na sala às escuras - recebeu os amigos que solícitos lhe vinham dar os pêsames. A eterna comédia humana… Só quando o pesado caixão subiu para a berlinda negra, só quando a longa fila de carros se pôs em marcha, é que ela acordou do pesadelo, e viu, conscientemente viu, toda a sua desgraça. Pela primeira vez chorou; chorou não por ele, mas pela ruína total e sem remédio da sua vida inteira. Porque era assim: a partir daquele momento toda a sua vida desabara convertida num montão de escombros. Debaixo dos destroços, ela jazia sepultada - morrera também. Por isso não pensou no suicídio: Existem angústias tão desoladoras, tão infinitamente cruéis, que nós temos a sensação nítida - mas é verdade, temos a sensação nítida - de que passámos já para além da morte. Em muitos dias de vida, por coisas de bem menor importância, por mil complicações enervantes e mesquinhas, lembrámo-nos de desertar. Porém, em face duma catástrofe horrível, de tal modo horrível que nunca admitimos a hipótese de a vermos consumada, não pensamos nem por um segundo nessa libertação. Não pensamos porque a nossa dor foi tamanha que mesmo na morte não acharíamos refúgio para ela - a nossa dor foi tamanha que realmente morremos já. E como morremos já, não importa que continuemos vivos. Demais, ao peso dessa angústia, toda a nossa vontade ficou abolida. Ora, digam o que disserem, ainda é imprescindível uma grande força de vontade para desfecharmos uma pistola sobre nós próprios, para nos precipitarmos duma ponte, para emborcarmos um frasco de veneno…
Silêncio de
Serena
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19.12.08
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Silêncios
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