segunda-feira, 1 de março de 2010

Caminho a seguir

Deslizo no escuro, sombras da noite perscrutam a minha alma.
Sinto frio, tenho medo.
Escolhi o meu caminho a seguir. Adivinho-o denso, sombrio e solitário.
Os meus passos são firmes. Não quero vacilar.
Pé ante pé, paulatinamente seguirei esta linha que se desenrola à minha frente.
Não mais poderei voltar atrás, não quero!
Não olharei para o passado, esse ficou lá... no passado, preso.
Fixo o meu olhar no futuro... busco a luz da minha vida.
Carrego no coração um voluptuoso sentir. Na alma, o livro dos nossos momentos. Memórias dum sentimento tão intenso, quanto verdadeiro: O meu eterno amor por ti!

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

há dias assim...

Há dias assim. Perto do nada e longe do tudo. Há dias em que a existência se veste do invisível. O corpo anseia pela paragem dos sentidos e a alma pelo eterno descanso.
Há dias assim. Dias sufocados pela gélida presença da tua ausência. Grito no silêncio do quarto. Grito por ti num insano querer de me fazer chegar até ti. Não estás mais aqui. Pensei-te eterno. Não o foste. O tempo levou-te de mim.
Amar-te é, hoje, um verbo vazio de sentido. É a amarra do passado e a indubitável solidão do futuro...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

existência artificial

Ainda sofria muito, é certo. Porém o seu sofrimento era outro: sentia por si uma grande compaixão, misturada de muita ternura; tinha uma pena, uma pena infinita de si mesma. Chorava por si, como se chorasse pela infelicidade doutra pessoa, duma pessoa muito querida. Instintivamente, recordava a sua infância, enternecia-se com ela; recordava a sua vida inteira, as suas alegrias, os seus dissabores, os amigos desaparecidos - e por tudo isso é que ela chorava.
O coração partia-se-lhe num confrangimento sem fim, mas no fundo esta dor consolava-a. Era o bálsamo suave que pouco a pouco, pouco a pouco, a curaria docemente. E esse choro nem mesmo a enfraquecia. Pelo contrário: revigorava-a. Há angústias que avigoram… A sua dor suavizada, era-lhe até proveitosa… Porém, uma existência artificial, talvez, a que sem dúvida não poderia resistir por muito tempo… e assim sucedeu, em breve terminou…

sábado, 21 de março de 2009

medo de…

“E quando isso suceder?…” questionara-se, perdida… mais perdida ainda ficara no momento da consumação; criança fraca, que chorara, gritara e num grande desalento - no vácuo horrível duma vida desfeita – sucumbira, depois de ter resistido durante largos dias. O seu espírito enfraquecera pouco a pouco na antevisão da desgraça. Não resistira… teve medo, muito medo, medo de ficar sozinha… medo de…

sexta-feira, 6 de março de 2009

Negação

Recuso-me a viver na tua ausência...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Correr... preciso correr...

Necessito correr. Correr em direcções sem sentido. Correr rápido. Correr com a brisa a romper-me a cara, com o Sol a secar-me as lágrimas. Preciso correr. Perseguir a minha liberdade e nunca alcançá-la para não cessar de correr. Correr com os olhos vendados, com a mente em branco. Correr por correr. Sem nenhum objectivo, sem metas, sem tropeções que arrebatem sonhos. Cansar-me de correr. Deixar-me cair quando já não tenha forças, recuperá-las e novamente correr. Não parar. Correr, olhar para os lados, para trás e nada mais querer ver que não seja o rasto que vou deixando à minha passagem. Com mais coragem correrei sem ninguém que me queira perseguir ou que me queira esperar. Correr. Fugir de mim ou talvez, quem sabe, ir ao meu encontro. Chocar de frente com a outra parte de mim que quero esquecer, que não quero encontrar. Arrebatar dela a alma e o coração, intrínsecos sentimentos, sugar-lhe o veneno que corre nas suas veias e que a consome a cada dia mais. Eu só quero sossego! Mesmo que isso signifique isolar-me. Correr sozinha. Não entendo este sentimento que me assola, me possui e me agonia devagar. Não entendo e talvez nem queira entender. Simplesmente fecho-me de fora para dentro e de dentro para fora; calo a minha voz, fico muda, distancio-me, fecho os olhos, respiro fundo e, às vezes, durmo. Ou, então, corro. Corro com o silêncio dos meus gritos dentro de mim e pairo na imensidão deste vazio...
Só me resta correr...

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

gestos e palavras

Gestos e palavras complementam-se, ou não fossem duas formas de comunicação.
O que seria de palavras sem os gestos para as reforçar ou o que seria dum gesto sem palavras para o definir e consolidar?
Já duvidei da palavra, chegando a crer que unicamente a palavra poderia ter duplo entendimento, mas à vida coube talvez o desprazer, talvez a sensatez de me ensinar que também os gestos são questionáveis.
Portanto, hoje, não dissocio a palavra do gesto, nem o gesto da palavra. Somente ambos e, em consonância, perfazem o tudo ou... o nada.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

- como a outra gente, afinal!

Tenho trinta e poucos anos, e não creio em coisa alguma; olho em volta de mim e não vejo nada que me atraia, nada que me encante, nada para que viva. Sinto, verdadeiramente sinto, que me barraram todo o corpo com uma camada de gesso muito espessa que me prende os movimentos, me aniquila os músculos.
Para a doença física em que a vida se me tornou, só existe um remédio: o aniquilamento. No entanto, nunca terei a força de vontade necessária para absorver esse temível elixir. Os meus amigos podem estar perfeitamente descansados. Apesar de tudo, continuarei vivendo; apesar de nada me distrair, não deixarei de frequentar os teatros; apesar de não crer em coisa alguma, irei rabiscando, alinhando palavras, escrevendo silêncios, sempre mais e mais, na conquista vã duma quimera… Gritando sem cessar a minha desgraça, amaldiçoando a existência, irei gozando do que nela houver de bom - como a outra gente, afinal!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Suicidas, como os respeito!

Quer dizer: não consideras o suicídio uma covardia?
Mas de forma alguma! Acho até que um suicida é uma criatura de enorme coragem. Sei que um suicida é um desertor: a existência tornara-se-lhe impossível; ele fugiu-lhe. Perfeitamente. No entanto, para fugir, teve que praticar um acto muito mais violento - logo, muito mais corajoso - do que praticaria se continuasse a viver. Se continuasse vivo, conformava-se no fim de contas com a lei comum. - “A vida é um sofrimento eterno” - sujeitava-se. Mas ele não se sujeitou, morreu às suas próprias mãos - isto é: revoltou-se. Ora, a “revolta” foi sempre sinónimo de audácia, de coragem de energia.
Os suicidas! Ah! Com que entusiasmo os admiro, como os respeito! Eles realizaram aquilo que quiseram. Eis a sua grande superioridade. Valem bem mais do que eu, que tenho tanto desejo e nunca serei capaz de despejar um revólver sobre o meu crânio. Quem vive bocejante, lazeirenta como eu vivo, e continua a viver, não é só covarde - é um miserável.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

E como morremos já...

Semilouca, com a razão obscurecida pelo menos, ela assistiu impassível à agonia suave dele e, vestida de preto - na sala às escuras - recebeu os amigos que solícitos lhe vinham dar os pêsames. A eterna comédia humana… Só quando o pesado caixão subiu para a berlinda negra, só quando a longa fila de carros se pôs em marcha, é que ela acordou do pesadelo, e viu, conscientemente viu, toda a sua desgraça. Pela primeira vez chorou; chorou não por ele, mas pela ruína total e sem remédio da sua vida inteira. Porque era assim: a partir daquele momento toda a sua vida desabara convertida num montão de escombros. Debaixo dos destroços, ela jazia sepultada - morrera também. Por isso não pensou no suicídio: Existem angústias tão desoladoras, tão infinitamente cruéis, que nós temos a sensação nítida - mas é verdade, temos a sensação nítida - de que passámos já para além da morte. Em muitos dias de vida, por coisas de bem menor importância, por mil complicações enervantes e mesquinhas, lembrámo-nos de desertar. Porém, em face duma catástrofe horrível, de tal modo horrível que nunca admitimos a hipótese de a vermos consumada, não pensamos nem por um segundo nessa libertação. Não pensamos porque a nossa dor foi tamanha que mesmo na morte não acharíamos refúgio para ela - a nossa dor foi tamanha que realmente morremos já. E como morremos já, não importa que continuemos vivos. Demais, ao peso dessa angústia, toda a nossa vontade ficou abolida. Ora, digam o que disserem, ainda é imprescindível uma grande força de vontade para desfecharmos uma pistola sobre nós próprios, para nos precipitarmos duma ponte, para emborcarmos um frasco de veneno…

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Grande parte de mim é... música...

Escolher um artista como revelador e qualificador dos meus gostos musicais é árdua tarefa, quase impossível de concretizar. No entanto porque só é “quase”, porque nada é [afinal] impossível e porque se trata de música, seleccionei da abrangente e vasta paleta de criadores que perfazem o meu mundo musical, uma intérprete que me acompanhou num dado período da minha existência e que me proporciona, sempre que a ouço no presente, um retrocesso emocional ao passado muito intenso.
Desta forma respondo à pretensão do Art que me lançou este desafio com as seguintes regras:


I. colocar uma foto individual nossa
II. escolher uma banda/artista
III. responder às questões somente com títulos de canções da banda/artista escolhido
IV. escolher 4 pessoas que respondam ao desafio, sem esquecer de avisá-los


I. Foto:









II. A banda escolhida: Alanis Morissette

III. As respostas:
3.1 - És homem ou mulher?: I'm a bitch, I'm a Lover
3.2 - Descreve-te: Everything
3.3 - O que as pessoas acham de ti?: Uninvited
3.4 - Como descreves o teu último relacionamento: Hands Clean
3.5 - Descreve o estado da tua relação actual: Big Bad Love
3.6 - Onde querias estar agora?: London
3.7 - O que pensas a respeito do amor?: Head Over Feet
3.8 - Como é a tua vida?: An Emotion Away
3.9 - O que pedirias se pudesses ter só um desejo?: That I Would Be Good
3.10 - Escreve uma frase sábia: (Change is) Never a Waste of Time

IV. Escolher 4 pessoas:
...

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Criaturinha desprezível

Tiveste um tempo. Um tempo que te pertenceu. Um tempo para te fazeres feliz e quem sabe, também, fazer-me feliz.
Jogaste com o tempo como se o pudesses vencer, como se dele fosses dono e senhor. A verdade é que o esgotaste. Venceu-te. Nada fizeste. Limitaste-te a percorrer os labirintos do esgoto da tua vida qual rato sarnento em busca do nada. E levaste-me. Roubaste-me o tempo. O meu tempo. Aquele que era meu. Só meu. Aliciaste-me com a luz ao fundo do túnel. Com uma mão quente, branca e imaculada e o sabor a felicidade que me oferecias com a ludibriada alvura do teu corpo. A tua alma, essa não a poderias oferecer porque simplesmente já não a possuías.

Sou uma menina colérica, talvez. Mas, não sou imbecil. Consumi as ínfimas forças que me restavam e dolorosamente emergi dos excrementos em que me depositaste.

Não sei para onde irei daqui. Sento-me no parapeito desta janela e deixo que o peso das minhas pernas decidam o voo que me levará à presumível libertação.
Quando me inclino para a frente acaricia-me os lábios o ácido que me corrói as entranhas, os pulmões deixam de respirar e do estômago jorra a podridão que não me deixa esquecer que, um dia, eu estive lá...

Quando morrer talvez consiga escapar. Talvez arranje uma família, talvez reconquiste os meus amigos. Talvez.

Estou cansada de fugir de tudo, de correr na ilusão de ainda me ser possível alcançar a superfície e flutuar ...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Força

Já alguma vez experimentaram pôr os braços à vossa volta para imaginar que alguém os está a abraçar? Já imaginaram poder falar com eles e pegar-lhes nas mãos? Já sentiram que eram feios e inúteis e tentaram descobrir os vossos defeitos, olhando para o espelho durante dias a fio? Já se riram disso? Sentiram-se estranhos e estrangeiros? Foram postos de parte e fodidos, queimados e violados dentro das vossas cabeças? Não conseguiram perceber o que eles queriam. Alguma vez esconderam a vossa sensibilidade, os vossos sentimentos verdadeiros, porque receavam ser espezinhados? Bom, eu já fiz. Eu fiz e passei por isso. Ainda estou a passar. Faço companhia a mim própria e tento imaginar alguém a amar o meu corpo e alma torturados. Tenho de ser forte para o fazer. Tenho de cerrar os punhos e os dentes, fingir ser pura e fazer o que devo, apesar das consequências. Apesar da dor e do fogo que me arde no peito, preciso de controlar os sentimentos e lidar com a situação. Nada de comida, de gargalhadas, de aplausos, apenas sobrevivência. Tenho de descobrir o meu último vício e levá-lo para a última página, para poder partir...

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

O(s) amante(s)

Ele está sentado em frente dela que está de pé. Ela baixa os olhos. Ele segura-lhe o vestido por baixo, tira-lho. Depois faz deslizar o slip de algodão branco. Atira o vestido e o slip para cima do maple. Retira as mãos do corpo dela, olha para ela. Ela não. Ela baixou os olhos, deixando-o olhar.
Ele levanta-se. Ela fica de pé em frente dele. Ela espera. Ele volta a sentar-se. Ele acaricia mas levemente o magro corpo dela. Os seios, a barriga. Fecha os olhos como um cego. Pára. Retira as mãos. Abre os olhos. Muito baixo diz:
- Não posso... não podemos... não pode ser verdade...
Ela não responde. Ele diz: É um pouco assustador. Não espera resposta. Sorri e chora. E ela, ela olha para ele e pensa – num sorriso quase a chorar – que talvez vá amá-lo por toda a sua vida.
Com uma espécie de receio, como se ela fosse frágil, e também com uma brutalidade contida, ele pega-lhe e pousa-a sobre a cama. Depois de ela estar ali, colocada, oferecida, olha-a outra vez e volta a ter medo. Fecha os olhos, cala-se, não a quer mais. E é depois que ela faz aquilo. De olhos fechados, despe-o. Um botão depois outro botão, uma manga depois outra manga.

Ele não a ajuda. Não se mexe. Fecha os olhos como ela.

Ela. Ela está sozinha. Olha para ele, o corpo dele nu tão desconhecido como um rosto nu. Igualmente singular, adorável como a mão dele, nua, sobre o corpo dela durante a viagem que haviam feito poucas horas antes. Ela continua a olhar, e ele deixa, deixa-a olhar. Ela diz muito baixo:
- Há coisas que nunca se esquecem…
Ela beija-o. Já não está sozinha. Ele está ali. Ao lado dela. Ela beija-o de olhos fechados. Pega nas mãos dele, agarra-as, encosta-as ao rosto. São as mãos da viagem. Enquanto lentamente ele cobria esse corpo com o corpo dele, sem o tocar ainda, o silêncio das vozes preencheu o refúgio dos amantes. Ouvia-se o barulho da noite, abafado e longínquo na noite do quarto. E a voz dele torna-se tão próxima como as suas mãos.
- Vou magoar-te.
Ela diz que sabe.

Ela dizia que se recordava do medo. Como se recordava da pele, da doçura, e de se assustar.
De olhos fechados tocava essa suavidade, tocava a cor dourada, a voz, o coração que tinha medo, todo o corpo que se continha por cima do corpo dela, pronto para o assassínio de a ignorar a ela que se tinha tornado uma mulher dele. A mulher dele, desse homem que se cala e que chora e que faz aquilo num amor assustador que lhe arranca lágrimas.

A dor chega ao seu corpo. Primeiro é uma dor viva, depois terrível. Depois contraditória. Não há mais nada igual. Nada. E realmente é quando essa dor se torna insuportável que começa a afastar-se. A transformar-se, a tornar-se apropriada para gemer, para gritar, a agarrar o corpo inteiro, a cabeça, toda a força do corpo, da cabeça e o do pensamento, arrasado. O sofrimento abandona o seu corpo, a sua cabeça. Foi ultrapassado, deixou de sofrer. Isto já não se chama dor.
E depois esse sofrimento abandona o corpo, abandona a cabeça, abandona insensivelmente toda a superfície do corpo e perde-se numa felicidade desconhecida de amar sem saber.

Ela recorda-se. É, talvez a única, a recordar-se, ainda. A ouvir, ainda, o barulho do mar no quarto. De ter escrito isso também se lembra, como do barulho da rua. Até se recorda de ter escrito que o mar estava presente nesse dia no quarto dos amantes. Tinha escrito as palavras: o mar e três outras palavras: simplesmente, a palavra: incomparável e a palavra: inesquecível.

Hoje, ela recorda...

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

O amante

- Nunca fazes nada, nunca... nunca fazes o que quer que seja...
- Nunca.
Ela sorri-lhe. Diz-lhe:
- Dizes “nunca” como se dissesses “sempre”.
Ele olha para ela.
Silêncio.
Ele diz muito baixo:
- É curioso... a este ponto... que te queira tanto...
Ela põe-se debaixo da ventoinha. Sorri para o ar fresco. Está contente. Nenhum dos dois repara que o amor está ali.
O desejo distrai-se outra vez.
Ela vai até à outra porta que fica do outro lado da porta de entrada. Tenta abrir. É pela maneira como ele a olha que se pode adivinhar que ele vai amá-la, que ele não se engana. Ele está numa espécie de emoção contínua, quer ela fale quer ela se cale. Para ele o amor também poderia começar ali. Ela enche-o de medo e de alegria.
Olham um para o outro.
Silêncio. Depois ela diz:
- Gosto disto aqui.
Ele pergunta-lhe como é que ela vê aquele lugar.
Olham, novamente, um para o outro. Ela hesita, depois diz:
- É um lugar abandonado - olha intensamente para ele - e além disso tem o teu cheiro.
Ele vê-a andar, beber, voltar.
Esquecer-se dele. - E depois recodar-se.
Ele levanta-se. Olha para ela.
- Vou possuir-te.
Silêncio. Apagou-se o sorriso do rosto dela. Empalideceu.
- Vem.
Ela vai ter com ele. Ela não diz nada, deixa de olhar para ele.

continua

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

(rascunho)

encolhes os ombros em movimentos tresloucados, como se ao fazê-lo questionasses o mundo e dele não obtivesses resposta. alheaste-te da orbe. deambulas, arrastando-te pelos escombros da vida. da tua vida. sorris de vez em quando. nem sabes do quê. também não é importante.
prendes os olhos nas esquinas do tempo. no tempo em que foste feliz, ou pensas que foste. no tempo em que as ausências do presente eram preenchidas pela presença da matéria e dos sentimentos.
o teu corpo dói. agonizas. cospes o ácido da cólera que te consome as entranhas. podias ter agarrado as rédeas da vida com as duas mãos, mas não. não o fizeste. doem-te do esforço. calejaste-as com o sofrimento das infrutíferas tentativas. não foi, ainda assim, o suficiente. constatas, hoje, na solidão dos teus dias.
dobras-te sobre ti mesmo. aninhas-te em ti. o peso das memórias, que queres apagar, agarra-te ao chão e não te deixa avançar. pedes clemência ao deus que outros te disseram ser o alívio das causas perdidas. não te ouve. tens os olhos a puxarem-te para o chão. não te reconhece. nem te reconheces.
um dia, um dia soubeste ser feliz. quando as tuas mãos ainda eram aquecidas.
podias ter sido tudo o que quisesses. tinhas tudo, mas não. deixaste-te ausentar de ti.

sábado, 1 de novembro de 2008

A minha cela

Que está a acontecer? Para onde estou a ir? Sento-me no silêncio da minha cela. O silêncio é tanto que me aflige. Os tímpanos vibram e doem, pedem som, pedem o doce conforto que se pode encontrar noutra voz humana. A raiva desaparece tão depressa como aparece. A confusão faz-me companhia, e a agitação corrói-me o espírito. Levam-me à loucura. Onde acabará esta estrada, aonde é que ela me levará? Que está a acontecer? Não sei. Talvez não queira saber, porque a resposta pode ser tão infernal como a indecisão, o abismo escuro e desconhecido em que vagueio neste instante.
Assisti ao nascer do Sol esta manhã. Vi-o lançar os seus curativos raios sobre os pássaros chilreantes e às árvores ondulantes na brisa da manhã. Esta visão fez-me sentir indescritivelmente bem. Fiquei em paz, uma paz que eu quis que confortasse, sempre, a minha alma. Mas... não confortou.
ainda sofro…

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Tu

Na ânsia de te ter, quis imaginar que conseguiria suportar a tua ausência, viver longe do teu mundo, não te ver, não te tocar, não te cheirar, que saberia viver este sentimento enclausurado dentro do meu peito… loucamente me engano, nunca serás meu… nem saberei viver sem ti a meu lado.
Sinto tanta saudade que não consigo ver o final desta eterna ansiedade porque sem o teu amor não conseguirei suportar este inferno no meu interior que me consome sem piedade.
Fizeste-me prisioneira do nosso tempo, dos nossos momentos, dos nossos beijos que não quero esquecer. Hoje vivo das e nas sombras do passado.
Felizmente tenho em cada sonho a tua visita, meu amor.
Tu que caminhas de pés descalços no lusco-fusco do meu quarto, tu, que acendes a noite com a tua terna voz, tu, que te deitas na minha cama e me abraças e me beijas e me acaricias os cabelos, tu, que nos meus sonhos me fazes tua, só tua... e te faço meu, só meu...
Tu, meu amor, pareces ser a única constante desta minha peregrinação, a tua alma a minha amarra e a razão de tudo o teu olhar.
E, da saudade do teu olhar, foi concebido este amor...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O momento

Curiosamente consigo precisar o momento em que te tornei eterno para mim. Soube que estava apaixonada quando me descobri a sorrir enquanto te observava a dormir.
Naquela noite não te esperava. Naquela, não poderias vir. Aninhei-me no sofá e relembrava a noite passada, as poucas horas que havíamos estado juntos.
A campainha ressoou... quem seria? Atendi. Quem é?... Preciso de ti... - disseste. Quando abri a porta, abraçaste-me como se há muito não me tivesses em teus braços... Preciso de ti... - repetiste. Não falámos. Aconcheguei-te no meu colo, acarinhei-te, embalei-te e adormecemos como tantas outras vezes, abraçados, naquela cama. Naquela noite não fizemos amor. Acordei com o ruído do vento na janela. Serenei e tentei voltar ao sono que tinha deixado a meio. Senti-me bem junto a ti, o teu corpo quente... o calor do teu corpo acalmava-me mas o teu cheiro tinha o efeito oposto. Desprendi-me do teu abraço e fiquei a olhar-te, contente por te ter ali... tão meu. Não tive coragem para te acordar e fiquei assim até a manhã surgir. Aquela fora a primeira noite em que nos permiti acordares junto a mim...

sábado, 4 de outubro de 2008

Ambos quisemos...

Ainda te viraste na ânsia de que eu te chamasse, que fizesse um movimento por mais pequeno que fosse que te fizesse voltar atrás. Percebi no teu rosto o quanto te custou descer aqueles degraus. Aqueles, que te levavam à tua nova vida. Enrolei-me nos meus braços. Nada mais havia a fazer ou a dizer. Afinal, era uma decisão tomada pelos dois. Nenhum de nós quis mais do que o outro. Ambos quisemos. Ambos decidimos. Ainda que não fosse o desejo de cada um mas, era a razão que ditava a nossa vontade.
Deixei-te ir. Sem uma palavra. Muitas fervilhavam dentro de mim. Queria dizer-te que não fosses. Que se calhar nos tínhamos enganado. Que provavelmente nos precipitávamos. Queria agarrar-te, não te deixar partir. Mas não, não o podia fazer.
Eu sei, sei que não vais tentar apagar-me da tua vida porque durante muito tempo no teu coração, nós vamos viver. Aqueles detalhes, tão pequenos e insignificantes de nós dois vão persistir, resistir, porque são coisas muito grandes para esquecer.
Sei que nos amamos. Que sempre nos vamos amar. Sei o quanto nos amámos, em silêncio e à distância. Não sei como acabará a nossa história. Sei que nos destruímos e que nos defendemos, unicamente, de nós mesmos. Sei que é o silêncio que nos resta, o que nos une, uma finíssima película de tempo suspenso, para além da qual não há nada mais do que a escuridão dos abismos. E, por isso, nenhum de nós ousa qualquer palavra, qualquer gesto, qualquer coisa que possa romper esse ténue fio que nos prende à eternidade.
É, talvez, uma história triste e sem fim feliz à vista. Ou talvez não.
Sei hoje e, ao ver-te partir também o senti, que nunca devemos amar em silêncio. Nada é mais perigoso do que dividir com outrem os pensamentos vividos em silêncio.
Tenho receio. Receio de não me vir a recuperar da tua ausência física. Mas guardo os nossos silêncios e reconstruo-os. E em cada silêncio da minha nova vida, estarás comigo e falarei contigo – como fazia dantes, deitada ao teu lado, falando em silêncio, numa nudez absoluta, sem segredos nem medos. Porque nada é mais íntimo e mais indestrutível do que o silêncio partilhado. O silêncio fica porque nunca mente, porque é tão íntimo que não pode ser representado, é tão envolvente que não pode ser rasgado.